quarta-feira, 30 de março de 2011

A LIGA AGREGA E TRIPLICA ESFORÇOS

Em geral, o conjunto das escolas de samba tem conseguido, ultimamente, transitar com certa normalidade pelos tortuosos e burocráticos caminhos oficiais, e tem tido razoável sucesso; sem não antes, porém, penar bastante, principalmente, pela morosidade tradicional nessa área, em que pese a utilização de táticas que não implicam em enfrentamento, e sim alianças pontuais. Em torno da Liga, as escolas se “entrincheiram” e vão ao combate da boa luta, já que a batalha em busca de recursos é sempre muito árdua e por isso elas não podem gastar munição com brigas internas. Ultimamente, de forma mais organizada, através da Liga, esse processo de busca de recursos tem se dado de maneira mais profissional, mas, individualmente, ainda falta um pouco de estruturação das escolas, no sentido de complementar os valores necessários para a produção de seus espetáculos.

Paralelo ao malabarismo para o equilíbrio com o staff oficial, o corpo dirigente das escolas enfrenta, às vezes, polêmicas internas e externas, que dizem respeito aos quesitos autonomia e dependência, e por outro lado a negritude e o branqueamento, acrescidos da questão da tradição, e os vínculos, ou falta deles, com as comunidades. Tudo isso, numa região onde, aparentemente, os aspectos tradicionais que movem o encantamento do universo da fantasia, são desconhecidos, e deixa confusa boa parte dos próprios integrantes das escolas.

Essas questões, às vezes, passam alheias à maioria dos integrantes das escolas e aos expectadores, em geral, que assistem tudo à distância, tendo como intermediário apenas a mídia; que também está ainda desfocada da visão histórica e cultural do mundo carnavalesco, e com isso acaba reproduzindo, aleatoriamente, uma série de conceitos, emitidos, às vezes, por quem, a priori, não tem a mínima noção do que é, de fato, a discussão em questão. Na verdade, esse confuso caldeirão de antagonismo acaba servindo para cozinhar a cultura que foi, até de certa foram, servida meio crua, motivo pelo qual ainda ela não foi devidamente digerida, criando um processo, altamente positivo, no sentido de dinamizar e processar bem as transformações necessárias, o que vai justificando, mesmo que lentamente, as alterações ocorridas, não só nas escolas como na própria estrutura de poder, que, em última instância, é a que acaba respondendo por todas as conseqüências, positivas ou negativas.

Diferente de outros centros, onde a cultura negra, mesmo antes da sua projeção através do carnaval, disputava com as demais manifestações de origem dos colonizadores; em Joaçaba, o nascimento e desenvolvimento das escolas de samba se deram, justamente, entre as comunidades que são formadas por descendentes de alemães e italianos, detentores, por conseqüência, da hegemonia das atratividades culturais. Enquanto nos centros de referências da cultura carnavalesca, as escolas de samba foram surgindo de ranchos, cordões e blocos, baseados em comunidades populares, como conjuntos habitacionais e favelas; em Joaçaba as entidades carnavalescas sugiram de grupos sociais, de classe “média-alta”, para os padrões regionais, e formados por pessoas que tinham históricas descendências sócio-culturais, e, a maioria, com ligações étnica ítalo-germânicas. Enquanto uma das primeiras escolas surgia da união de uma companhia teatral com um bloco carnavalesco, formado por jovens de classe média; a outra nascia da histórica união de um grupo de jovens casais, da alta sociedade joaçabense e hervalense, que nos períodos carnavalescos reunia-se para se divertir, saindo às ruas das duas cidades, em forma de bloco. É evidente, porém, e muito importante, mencionar que apesar do aparente “branqueamento” das escolas de samba, no seu nascedouro; tinha-se, no bojo da história passada dessa cultura, uma semente de origem afro, plantada nas primeiras décadas do século vinte, tendo-se por base, principalmente, o batuque de Candomblé, praticado em Herval d´Oeste, num terreiro chamado Casa Nova Era.

Aumentar o prestígio ou o reconhecimento das escolas de samba, conquistando mais espaços sociais, é sempre um dos objetivos dos dirigentes, já que essa moeda pode representar mais poder de persuasão na defesa de seus interesses nas complexas e invisíveis redes de disputas de bastidores, inimagináveis para as pessoas que apenas assistem aos espetáculos. A disputa, inicial, pela conquista da simpatia social, portanto, já passou para a fase da disputa pela supremacia financeira, pois com ela, principalmente no mundo da fantasia, é possível se “conquistar” apoios tão ou quase tão importantes quanto àqueles advindos dos esforços sociais, junto a segmentos considerados potenciais pelos outrora recrutadores de simpatias, e que hoje foram transformados em exímios “captadores” de garantias financeiras. Mas, apesar de toda essa transfiguração, que gera apoio ou discordância, há que se ressaltar que o mundo do carnaval mantém, à duras penas, uma base que não pode ser desprezada, em hipótese alguma, e que dá uma sustentação para a sua defesa intransigente: a manutenção simbólica de uma brasilidade, que traz com ela um conjunto de signos representativos da trajetória de uma raça, que é um dos pilares de sustentação da nossa identidade, portanto, algo inerente à cultura nacional. Por outro lado, como um dos aspectos mais concretos desse imaginário místico, está a fecundação de uma semente comunitária, de grande valia cultural e educacional, cujos resultados positivos, mesmo que mal absorvidos, ainda são responsáveis por boa parte da diminuição dos processos degenerativos, comuns nas áreas mais carentes das periferias.

O percurso histórico das escolas de Joaçaba e Herval D`Oeste, apesar de alguns percalços, na condução de suas trajetórias, já deixa legados fundamentais para a construção de uma compreensão maior da cultura carnavalesca no Vale do Rio do Peixe. Uma das vertentes que poderá ser bem aproveitada desse processo, até mesmo melhor do que em qualquer outra região, caso haja razoável pequeno esforço nesse sentido, é a área “pedagógica-cultural”, já que nas escolas de samba repousam extraordinários saberes que podem ser de grande utilidade para a formação de boa parcela da população, haja vista que as ações de cultura e arte, hoje produzidas e promovidas por essas entidades, atingem diferentes aspectos, o que as tornam, de fato, em exímias construtoras de ensinamentos.

No aspecto social, ou das ações que emanam dessa área, já está consolidada a histórica tradição da salutar vivência comunitária, entre os adeptos das escolas, e a relação cordial destes com os outros segmentos, o que é um aprendizado extremo de convivência com o diferente e o com o similar, seja no aspecto de pequenos núcleos, como são as comunidades de bairros, ou até mesmo em um leque mais amplo, em que massas antagônicas podem estar envolvidas, como no caso dos desfiles, que reúnem sempre milhares de pessoas que, mesmo disputando preferências, conseguem, pacificamente, em nome da ordem pré-estabelecida, cumprir os seus papéis. O marketing do relacionamento é um ganho extraordinário para todos das comunidades e contribui para valorizar as reivindicações das entidades, já que através do reconhecimento de seus procedimentos sociais, há um visível empenho de outros segmentos no sentido de contribuir, sempre que necessário. Por outro lado, o processo de integração, baseado na convivência, e tendo como ingredientes as referências culturais ancestrais, facilita a ponte entre a tradição e a modernidade, fazendo uma combinação de interesses que criam e recriam conceitos, o que é, fundamentalmente, o objetivo da ação educativa.

Aparentemente, e do ponto de vista externo, a elaboração e manutenção da pacífica ação coletiva, no mundo carnavalesco, é natural e sem maiores transtornos; mas, na verdade, há, sim, conflitos que geram profundos desentendimentos e que, muitas vezes, acabam por atingir e prejudicar uma parcela significativa das forças de atuação dentro de células núcleos do processo. Por isso é que há uma luta constante, principalmente entre os integrantes mais velhos das escolas, para a preservação, mesmo que com um pouco de deturpação, de ritos da tradição, já que com base neles, e em nome de um objetivo até místico, é possível se fazer o enquadramento social no sentido da manutenção da convivência e sobrevivência das entidades, porque sem elas a lógica perderia o sentido. Para o desenvolvimento desse processo, na tentativa de assegurar coesão interna e externa, e amenizar as influências político-partidárias, que são preocupantes no amplo universo das entidades carnavalescas, pois elas podem até atrelá-las ou desestruturá-las, o caminho mais fácil é a descentralização das instâncias de poderes, através de comandos decisórios diferenciados, e o salutar estímulo à democracia. O aspecto político mais interessante, e estimulado constantemente no interior dos barracões, e que faz parte de uma concepção pedagógica, é o da organização política representativa das escolas, para que se possa ter mais força para fazer alianças com outros segmentos da sociedade e, conseqüentemente, assumir, de fato, direitos e deveres. A criação da Liga, por exemplo, é fruto dessa preocupação organizativa, e representa importante fórum de debates na luta pela manutenção ou ampliação de suas conquistas, e se torna fundamental para inibir tendências de parcialidade em prol de determinadas correntes partidárias. Essa postura evita, entre outras coisas, o paternalismo e o clientelismo políticos, e a prática acaba sendo vista entre os componentes das escolas de samba como uma espécie de “ISSO” ético e moral invisível; tal qual um manual no qual estão contidas as rígidas normas que são indispensáveis para a manutenção da unidade.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Candomblé e Carnaval: Joaçaba e Herval d´Oeste

Por Renato Franke/Maria Helena dos Santos

Mandinga, feitiçaria, macumba! Muitas perguntas passam pela cabeça das pessoas quando o assunto são as religiões afro-brasileiras. Afinal, o que são? Como surgiram?O que realmente elas pregam? Quais suas diferenças? Quem as pratica?

As religiões de origem africana chegaram ao Brasil junto com os escravos, e manter as tradições religiosas era um jeito de conservar a identidade do grupo. Com o tempo, os ritos se misturaram a outras manifestações brasileiras e aos poucos surgiu o Candomblé, e mais recentemente a Umbanda. A quem diga que a umbanda é a mais brasileira das religiões, de origem negra e com fortes influências do Catolicismo e do Espiritismo, a mistura atrai milhares de seguidores, especialmente em São Paulo, no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul e na Bahia. Em 1991, existiam quase 650 mil adeptos, de acordo com o censo do IBGE, mas acredita-se que esse número seja ainda maior, pois muitos adeptos temem sofrer preconceito ao se declararem umbandistas.

As religiões como o candomblé e umbanda têm uma relação simbiótica, genésica, com a cultura afro-brasileira. A origem do carnaval carioca, por exemplo, surge das festas do catolicismo popular dos negros, mesclados ao jongo, samba de quintal e candomblé. O candomblé, como ritual religioso que é também tem seus momentos carnavalescos, as batucadas, os cantos, o maracatu.

A cultura negra, no Vale do Rio do Peixe

As crenças, a religiosidade, fazem parte da cultura de um povo, e a cultura afro trouxe para Joaçaba o Carnaval. De acordo com João Paulo Dantas, jornalista e escritor, "A cultura negra, no Vale do Rio do Peixe, mesmo que tímida, exerceu algumas influências na região, e entre elas vale destacar, com mais ênfase, o carnaval. Pouca gente sabe, mas o carnaval de desfile de escolas de samba, que hoje acontece com muito sucesso em Joaçaba, mesmo sendo, praticamente, criado e produzido por brancos, de classe média-alta, a exemplo dos centros de excelência dessa cultura, se deve a um pequeno núcleo de negros que existiu em Herval d´Oeste, nos anos trinta e quarenta. Esses negros, a maioria vindos, dos estados da Bahia, Espírito Santo, São Paulo e Rio de Janeiro, chegaram até o Vale do Rio do Peixe por intermédio da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande do Sul, que foi implantada no início do século XX, e teve o seu apogeu nos anos trinta e quarenta”.

Ainda segundo o jornalista, o grupo responsável pelas primeiras manifestações carnavalescas na região, promoveu, inclusive, alguns "desfiles" de blocos pelas ruas de Herval e Cruzeiro (nome de Joaçaba, à época). “A base física dessa manifestação cultural, e que abrigava esses pioneiros batuqueiros, era um terreiro de candomblé; a casa Nova Era, um terreiro que abrigava uma espécie de "Umbandomblé", mistura de Umbanda e Candomblé. Esse terreiro era localizado, em Herval D´Oeste, na então conhecida Coxilha Seca, e tinha sob o seu comando um Pai-de-santo, que era originário da Bahia, mas que morou alguns anos no Rio de Janeiro, antes de vir para Santa Catarina. O pai-de-santo Antônio Nunes de Oliveira, aliás, tinha uma história interessante, mas que poucos tomaram conhecimento: no Rio de Janeiro ele trabalhou, no cais do Porto, como estivador, com um dos expoentes da religião afro e do carnaval carioca, que foi Mano Elói. Esse pai-de-santo carioca foi fundador de três escolas de samba no Rio: Deixar Falar, Vai Como Pode e Prazer da Serrinha, que transformaram-se, muitos anos depois, em Portela e Império Serrano. Foi com Mano Elói que Antônio Nunes de Oliveira, ainda no Rio de Janeiro, aprendeu os ofícios do Candomblé, os quais, já em Herval d´Oeste, repassou para a sua filha Maria dos Prazeres Oliveira, a Dona Maria dos Prazeres, mãe-de-santo e primeira Porta Bandeira da Escola de Samba Unidos do Herval”

Negra, Mãe-de-santo e Porta-Bandeira, Dona Maria dos Prazeres acompanhou, de perto, todas as manifestações referentes a religião afro, com base no Candomblé e na Umbanda, e também ao carnaval. Dona Maria dos Prazeres morreu nos anos oitenta, mas ainda teve a oportunidade de ver a sua escola de samba do coração, a Unidos do Herval, ser campeã, com um enredo histórico: Locomotiva, que contava, subjetivamente, a origem de Herval d´Oeste, com base na história do trem de ferro.

Todos esses resgates da cultura carnavalesca e das religiões afros na região estão contidas no livro Joaçaba, Samba (E Faz Escola), Desde 1934, de autoria do jornalista e escritor João Paulo Dantas, em parceria com o carnavalesco Jorge Zamoner. O livro tem previsão para lançamento, no carnaval de 2011, junto com a comemoração dos setenta e seis anos de atividades carnavalescas, trinta e dois anos de desfiles e quinze anos de fundação da Liga das Escolas de Samba de Joaçaba e Herval d´Oeste.

Dantas, orgulha-se ao falar do trabalho de resgate histórico do carnaval, e das religiões afro-brasileiras manifestadas na região, justamente por ter tido contado com uma das maiores personagens desse enredo. “Eu tive a oportunidade de registrar uma parte da trajetória da pequena, mais importante, história da religião e do carnaval afro no Vale do Rio do Peixe, ouvindo, justamente, uma das mais importantes personagens dessas culturas: Dona Maria dos Prazeres, com quem eu gravei, em áudio, dois depoimentos, em épocas distintas, e justamente sobre carnaval e candomblé. Graças a esses depoimentos, que tinham preciosas informações, eu consegui, mais tarde, levantar uma pesquisa que pôde, pelo menos parcialmente, contextualizar e legitimar os desfiles de escolas de samba, que hoje já é uma cultura consolidada numa região que, pela lógica da sua colonização, não teria o carnaval entre as suas principais manifestações culturais”, destaca.

Hoje, a prática do candomblé e umbanda na região do Vale do Rio do Peixe, parece não mais existir, mas ela veio para ficar e mesmo sendo pouco divulgada, reúne muitos adeptos. A intolerância religiosa talvez seja a principal causa de sua baixa visibilidade, mas os batuques ainda soam, e discretamente cultuam os orixás, mantendo viva uma crença e a cultura negra na região.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Joaçaba, "FelizCidade"

Samba-Exaltação:
Joaçaba, "FelizCidade"
Autor: Jõão Paulo

Quem tem fé,
Vem à Joaçaba,
Vem pra se banhar de felicidade,
Vem trazer axé pro carnaval (oiii...)
Aqui dessa cidade...

Tem alegria, tem...
O ano inteiro,
Você vai descobrir,
Não é só em fevereiro,
O povo é feliz,
É uma realidade,
A harmonia dessa
"FelizCidade".

Joaçaba tem um alto astral,
Devoção à frei Bruno,
Um show de visual;
Carnafolia, fantasia e esplendor;
(Escola de samba, batucada e tambor)

Bate, rebate, sambista,
Mexe, remexe; passista,
Em Joaçaba está à vista
o Carnaval, (Oba... !)
O carnaval, é amor,
Magia pra curar a dor,
A energia e o calor,
Pra espantar o mal...

OS LOUCOS NOSSOS DE CADA DIA

Samba-Enredo EXALTAÇÃO
OS LOUCOS NOSSOS DE CADA DIA
Autor: João Paulo Dantas


(Diretamente do Campo do Baréa, a nossa homenagem aos anônimos,
de todos os lugares, representados pelos nossos tipos populares).



A UNIDOS DO BARÉA, ALEGRE-MENTE, VEM APRESENTAR Ô Ô... EM SEU ENREDO A HISTÓRIA DOS TIPOS POPULARES DE OUTRORA...
QUEM NÃO SE LEMBRA DO MEIRINHO E DA ROSINHA, UM ROMANCE TÃO PROFUNDO QUE MARCOU, E EM UM DOS SEUS POEMAS, ELE ASSIM SE EXPRES-SOU:

UMA ROSA É UMA ROSA, UMA FLOR É UMA FLOR...} NÃO EXISTE UM SÓ JARDIM QUANDO SE FALA DE AMOR...} BIS

(E A JAMANTA....)

JAMANTA, A CATADORA DE PAPEL (DE PAPEL) QUE MOROU DEBAIXO DA VELHA PONTE, E HOJE LÁ DO CÉU CONTEMPLA O HORIZONTE, (E A FILHARADA QUE DEIXOU AQUI AO LÉU...) NÊGO PALMIRO, O MEIO LOUCO BEM FALANTE, DANDO UMA DE IMPORTANTE, O JOAÇABENSE CONQUISTOU Ô Ô...E TINHA O CORVO, METIDO A PISTO-LEIRO, FORASTEIRO, VALENTE SE MACHUCOU.

Oi, QUERO VER PEGAR, OI, QUERO VER PEGAR, MARIA GAZOLINA O CAMBURÃO VAI TE LEVAR BIS

(E NESTA LISTA....!)

NESTA LISTA DE ILUSTRES CONHE-CIDOS, ALGUNS TEMIDOS E OU-TROS FESTEJADOS; UNS ERAM MENDIGOS; OUTROS MALANDROS E DEMENTES, MUITA GENTE QUE JÁ FAZ PARTE DO PASSADO. NÊGO MIRICO, MEIO BICO E O BIRINHA, O JUCA FIAPO, A CHININHA, O MASCOTE E O BANZÉ; SEMPRE NO TROTE A CAMINHO O TOTINHA, QUE ODIAVA O RADIALISTA JACARÉ.

O PONGA, O TITO LOUCO E O BAR-BUDINHO, TRIO SONGA MONGA; TRISTE SINA LHES SORRIU, A EXEMPLO DA MARIA GAZOLINA PARA OUTRO MUNDO HÁ MUITO TEMPO JÁ PARTIU.

ALGUNS SE FORAM, MAS OUTROS TAMBÉM CHEGARAM, E COM ALE-GRIA ANIMARAM ESSA CIDADE, E HOJE EM DIA A NOSSA FELICI-DADE, (QUEM DIRIA...) É NA VERDADE ESSE LOUCO PONTARIA.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Estação Herval

Samba:
Estação Herval
Autor:
João Paulo


Esse "trem felicidade"
É miragem, é fantasia,
Imagem, só; Imagem,
(Magia...!)
Viagem nostalgia,
À "estação saudade".

Sonhado, presente,
Expoente vitória,
Vertente de glória,
Passado recente...
Legado que vem,
Embarcado na história,
Refém da memória,
Que vai muito além.

Jogo de lórbia, râmbio de rio,
Que tírvia boa, (de sol a sol),
Na estaronce o trem partiu...
E do Baréa sumiu o futebol.

Nos trilhos sem brilhos,
Dormentes no chão,
Não passa vagão,
Nem maria fumaça...
A locomotiva é figurativa,
Está inativa no ponto final,
Mas a recordação,
Ativa a inspiração...
Dos filhos da Estação Herval.

Um grito, um apito,
O alerta geral:
Esse trem é um mito,
Bendito Herval !)
Que hoje vem fazer bonito,
No agito do meu carnaval.

HERVALÊS: O LINGUAJAR QUE HERVAL FEZ

Samba de Enredo:
HERVALÊS: O LINGUAJAR QUE HERVAL FEZ

Letra:
João Paulo Dantas



Todos à bordo, vamos viajar...
Nos trilhos da história, relembrar,
Foi na Estação que tudo aconteceu,
O Larfiar nasceu e a ferrovia foi o
apogeu...!
Tinha maleiro, taxista e passageiro,
Maquinista, mascate e biscateiro,
Trem bananeiro, engraxate e artesão...
E no kióski, lá atrás do balcão,
O João Kalinóski e o pai do Carlão.

No campo do Baréa, o futebol,
(De sol-a-sol) até ao anoitecer,
Roubo de frutas lá na "zárquia" dos Bareta,
E as caretas do "francês" Demolinêr.
O "seu" Lovato, e o velho Bodegão,
Hotel União, a prainha, as lavadeiras,
O cineminha do Saraiva e as domingueiras,
As cachoeiras, poço rico, assombração,
Jornal Ferrão, o Cipriano e as benzedeiras,
E as brincadeiras de "bulirca" na Estação.

Estaronse, sirne ?
Que trem croilo é cerde, mole?
Não é Corance?
Não, morne, é do trenísio,
Que a Dragonísio vai larfiar,
E levar a "Eslórquia" pro lado de lá.

Das lembranças da "maronguia" cobiçada,
"Murfiada" contente lá no Rio,
Ficou apenas a saudade de presente,
De um passado que há muito já partiu.
Cada imagem desse tempo é um retrato
De um fato na viagem da história,
E a herança é paisagem de esperança,
Guardada na memória de criança.

Mas, enfim assim chegou o dia,
O trilho-guia perdeu o seu brilho...
E no fim da linha; o ponto final.
Mas tudo isso foi só fantasia,
E o trem da alegria hoje é o carnaval.

O Tio Sam mandou o trem,
(Mas que legal...)
O caboclo se revoltou,
(Pegou mal...)
Mas depois da Revolução,
É que o "trem ficou bão"
E nasceu a Estação Herval.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

HERVALÊS: CONCEITUAÇÃO HISTÓRICO-LINGÜISTÍCA

O chamado "hervalês", falado pelos meninos da Estação do Herval, nos anos 50 e 60, analisado sob a ótica da lingüística histórica, é uma reprodução deturpada de um movimento anárquico-lingüístico internacionalizado, a partir da França, nos anos 30. A origem do movimento foi, na verdade, o Cours de Linguistique Generale (Curso de Lingüística Geral), de autoria do pai na lingüística moderna, o suíço Ferdinand de Saussure. Os seus estudos criaram um anagramático na prosa e poesia greco-latina, que tinham origem na teoria de que, já na antigüidade, a construção dos versos eram feitas em cima de determinados anagramas, baseando-se em metrificações com regras pré-estabelecidas sobre quantidades equivalentes de consoantes e vogais e da disposição das letras formadoras do anagrama nos versos.(STAROBINSK, Jean. As palavras sob as palavras. Ed. Perspectiva).

O irmão de Ferdinand, René de Ferdiand, posteriormente, no início do século XX, criou o IDO, uma versão reformulada e simplificada do Esperanto. O nome "ido" tem origem no sufixo esperantista id, que equivale a "descendente, continuador" e da vogal o, desinência de substantivo, e as letras “I. D. O” são também abreviatura de “Idiomo Di Omni” (Idioma de todos). A língua Ido herdou muito da gramática do Esperanto, e em muitos casos o vocabulário é idêntico, e alguns idistas iniciaram outros projetos lingüísticos, de tendência mais naturalista: as línguas Occidental e Novial.

René de Saussure (nascido em Genebra em 1868 e morto em Berna em 1943) foi um esperantista suíço e um professor de matemática que escreveu obras importantes sobre Esperanto e inter-lingüística. Sua obra mais importante é uma análise da lógica da formação das palavras em Esperanto: Regras fundamentais da teoria da palavra em Esperanto. Tal como o Esperanto, o Ido tem como principal objetivo uma síntese das principais línguas européias existentes, com um vocabulário relativamente reduzido, uma gramática simples e consistente, sendo assim teoricamente fácil de aprender. Usa as vinte e seis letras latinas do alfabeto inglês, sem o uso de acentos. O Ido assemelha-se às línguas românicas e é confundido, à primeira vista, com o italiano ou com o espanhol.

Em se tratando de antigüidade com relação ao tema, vale ressaltar que a mais antiga e importante fonte de um famoso palíndromo bidimensional, também conhecido como fórmula Sator, é uma inscrição latina que foi encontrada nas ruínas de Herculano e Pompéia. Este quadro é considerado um palíndromo perfeito, pois é absolutamente simétrico, podendo ser lido de quatro maneiras: da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, de cima para baixo e de baixo para cima.

A onda dos anagramas, palíndromos e anacíclicas, em determinado momento, espalhou-se, e foi absorvendo penduricalhos mundo afora, e como tantas outras curiosidades alusivas à escrita e a fala, ela também chegou ao Brasil, e justamente numa época em que o país consolidava a sua malha ferroviária; entre elas a que ligava o Sudeste ao Sul, através da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande do Sul.

E qual é o motivo do linguajar dos maleiros e engraxates de Herval d´Oeste entrar nessa história? Bem, entra, a princípio, por três motivos: o primeiro deles é porque Herval d´Oeste, como se sabe, foi por muitos anos uma das referências da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande do Sul, já que sediava uma das estações estratégicas da ferrovia, e numa região que, por algum tempo, e num passado não muito distante, foi palco de uma guerra: a Guerra do Contestado. Por esse motivo, o Município era, até certo ponto, privilegiado com relação aos demais no tocante as informações e novidades que chegavam dos centos maiores. O segundo motivo é que, a exemplo de outras localidades recortadas pela estrada de ferro, Herval d´Oeste tinha, entre os trabalhadores da ferrovia, imigrantes poloneses e ucranianos, (e que, erroneamente, todos eram chamados de "polacos", e não apenas os poloneses. E o terceiro motivo, que tem ligações com os dois outros anteriores, é que veio morar em Herval d´Oeste, nos anos 40, um jovem, cujo apelido era "corvo", que se tornaria, mais tarde, um dos "autores" do linguajar que ficou, posteriormente, conhecido como "hervalês".

Corvo era oriundo do Rio Grande do Sul, e segundo se sabe, a sua família era agregada de uma família ucraniana, e ele desde a infância ouvia um linguajar estranho, que era uma mistura de esperanto, polaco e português, falado pelos patrões dos seus pais. Observa-se que os poloneses e os ucranianos, em geral, sempre tiveram muitas dificuldades em falar outras línguas, e a que eles mais se adaptavam era o esperanto, língua esta que tentavam usar quando precisavam se fazer melhor entender por outras pessoas, principalmente na época em que o governo brasileiro proibiu o uso das línguas alemãs, italianas, polonesas e ucranianas pelos imigrantes. Ainda no Rio Grande do Sul, e muito criança, Corvo aprendeu algumas palavras da mistura de ucraniano, polonês, esperanto e português, e outras que as crianças de sua idade aprendiam com as brincadeiras originadas nos anagramas; e, ao vir para Herval d´Oeste, juntando-se à garotada de sua idade, começou a estimular a criação de novas palavras, tarefa essa que dividiu com o amigo Tupira (Tupirajara Adail), que ainda mora em Herval. Tupira, aliás, além de ser um dos "mentores" do "hervalês", também foi o criador do que podemos chamar de a primeira escola de samba de Herval d´Oeste: a Bando da Lua, que a princípio era uma charanga para animar partidas de futebol, mas que depois passou a ser, praticamente, uma escola de samba, animando os foliões de Herval d´Oeste e Joaçaba no período do carnaval.

A oficialização da criação do linguajar pelo Corvo e pelo Tupira está documentada em uma Monografia produzida por Alcides Volpato, como trabalho de encerramento do Curso de História da UNOESC-Universidade do Oeste de Santa Catarina, intitulada "O Linguajar dos Maleiros/Engraxates de Herval d´Oeste e Joaçaba". O trabalho, único a conceituar de forma acadêmico o linguajar, é uma importante contribuição acadêmica para a preservação da memória desse fato, haja vista que, até então, havia apenas relatos orais de testemunhos de alguns falantes da época, sem nenhum registro oficial.

Há algum tempo atrás, movidos pela reminiscência, um grupo de falantes do hervalês aventou a possibilidade de se criar um dicionário do linguajar, mas o que resultou foi apenas um glossário de palavras, que à época eram mais faladas e que ainda permanecem na memória dos mais antigos. Entretanto, por absoluta falta de consistência e solidez lingüística, seria, realmente, impossível se produzir um dicionário com um leque de vocabulário capaz de dar sustentação a uma fluência idiomática, a exemplo de alguns dialetos existentes, aqui mesmo no Brasil. Por outro lado, e até por falta dessa base, há muitas divergências entre os próprios falantes do "hervalês" com relação a algumas palavras ou termos, com um grupo defendendo uma forma; e outro se opondo a ela, e isso acaba criando mais dificuldades ainda para a sistematização do linguajar. O trabalho de conclusão de curso de Alcides Volpato, porém, mesmo não tendo uma pesquisa mais aprofundada sobre a origem do linguajar, é um instrumento acadêmico e valioso, e que contribuiu com os registros do processo histórico regional.

"Foi o Corvo que trouxe algumas palavras do Rio Grande do Sul pra cá, e aí a gente começou a inventar outras", relata Tupira. Outro falante do hervalês, Adão Padilha, acrescenta: "a gente ia jogar bola lá no campo do Baréa, e depois ficava um tempão criando e treinando novas palavras". (O Linguajar dos Maleiros/Engraxates de Herval d´Oeste e Joaçaba - Alcides Volpato - UNOESC-SC).

Em um depoimento que me foi dado por Dona Maria dos Prazeres, há muitos anos atrás, e gravado em áudio, há, também, uma "pista", sobre a origem do "hervalês" e a autoria dele creditada ao Corvo. "Eu sabia algumas coisas do Corvo, porque eu conheci a avó dele, que veio do Rio Grande do Sul e morou em Herrval d´Oeste, e depois foi para Campos Novos, lá para a Invernada dos Negros, onde eles tinham parentes. O nome dela era Maria Conceição de Jesus, mas conhecida por Mãe Pretinha, e ela era adepta do Tambor-de-Mina (Candomblé). Lá no Rio Grande do Sul, pelo que sei, eles viviam com uma família de polacos, e parece que foi de lá que o Corvo aprendeu algumas palavras esquisitas, que depois ele ensinava ai para os meninos de rua, e ninguém entendia nada".

O anagrama é uma espécie de jogo de palavras, que resulta de arranjos de letras de uma palavra ou frase para produzir outras palavras, utilizando-se de todas as letras originais exatamente uma vez, e a forma correta de expressá-lo é através de uma equação, com símbolos de igualdade (=, separando o objetivo original e o anagrama resultante. No que é chamado de anagramia, que é um sistema mais avançado e sofisticado, o objetivo é ‘descobrir’ um resultado que tenha um significado lingüístico que defina o objetivo original de forma humorística ou irônica. Tudo isso, porém, não pode ser feito de maneira aleatória, pois há uma fórmula matemática para se estabelecer os anagramas de uma palavra, que é ((a-b/c)+1), sendo que "a" é igual o número do anagrama; "b" o último caractere ou a diferença da divisão de "b" por "c"; e "c" é o número de caracteres.

É evidente que nenhum dos garotos da Estação do Herval, muito menos o Corvo, tinha a mínima noção de que o que estavam fazendo, de brincaderia, era, na verdade, historicamente, uma "evolução" de um processo cultural lingüístico, cuja base era sólida e cientificamente estudada desde a antigüidade. Em função desse desconhecimento, é claro, as derivações por eles criadas não tinham mais as lógicas de palíndromo, de acrônimo ou de anagrama; mas acabaram formando algumas palavras com as quais eles conseguiam se comunicar, mesmo que precariamente, tomando "emprestado" palavras do português, principalmente as preposições, que ligam os elementos da oração; e os verbos. Vale destacar, ainda, que algumas palavras que fazem parte do glossário do "hervalês" podem ser entendidas também por pessoas de outras regiões, que não conhecem Herval d´Oeste e nunca tiveram contato com alguém que tivesse conhecimento do linguajar. A explicação para esse fato é que no nascedouro do linguajar, há palavras que, de fato, são originárias de um tipo de anagrama ou palíndromo, as quais podem ser conhecidas em outras regiões com o mesmo significado.


*João Paulo Dantas (jornalista e escritor; autor dos livros Besta Fera Capitalista (colagem lítero-musical teatral) e Joaçaba, Samba (E Faz Escola), Desde 1930 (a ser lançado em breve).